Vídeo: IA escolhe resposta “socialmente desejável”, em vez de avaliar contexto estratégico

Os modelos de inteligência artificial apresentam uma limitação cognitiva concreta quando aplicados à tomada de decisão nos negócios: em vez de analisar a conjuntura real de uma empresa, as ferramentas tendem a escolher a alternativa considerada socialmente desejável. A avaliação foi apresentada por Felipe Senise, sócio da ILUMEO, com base em um estudo publicado pela Harvard Business Review.

A pesquisa citada testou a capacidade da inteligência artificial diante de conflitos clássicos de gestão. Os pesquisadores formularam sete tensões estratégicas tradicionais do ambiente corporativo. Entre os cenários analisados estavam os dilemas entre investir em ações de curto ou de longo prazo, focar em diferenciação de produto ou em preço, e optar por estratégias de colaboração ou de competição.

Para analisar o comportamento das ferramentas, foram executadas centenas de rodadas de testes. O experimento variou tanto os modelos de inteligência artificial utilizados, quanto os enquadramentos e formatos das perguntas feitas aos sistemas.

O resultado apontou um padrão claro na atuação dos algoritmos. Na maioria das simulações, a inteligência artificial optou pela alternativa que soa mais nobre ou adequada para a função de um estrategista.

Quando confrontada com a escolha entre metas imediatas e planejamento futuro, por exemplo, a ferramenta priorizou o longo prazo. Essa escolha ocorreu por ser a atitude socialmente esperada de quem planeja negócios, e não devido a uma análise das necessidades e particularidades do momento.

Esse tipo de conduta decorre do próprio funcionamento dos modelos de linguagem. A mecânica interna dessas ferramentas opera para calcular e elevar a probabilidade de entregar a resposta que o usuário busca. Como consequência, o sistema adota respostas padronizadas e alinhadas ao que é considerado ideal na teoria, em vez de examinar dados circunstanciais.

A limitação afeta diretamente a aplicação da tecnologia no planejamento corporativo. Como a construção de estratégias exige soluções desenhadas para cada cenário específico, a tendência da inteligência artificial de buscar a resposta genérica mais aceitável limita sua utilidade prática.

“A estratégia é algo caso a caso, é concreto, específico e precisa ser desenhado sob uma ótica circunstancial”, pontuou Senise. Diante dessa característica do mercado, o viés do algoritmo em direção ao socialmente desejável representa uma barreira evidente para a tomada de decisão.

 

Felipe Senise é Sócio e Chief Strategy Officer da ILUMEO.

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