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title: "Aceleração da ciência em tempos de pandemia: os dois lados da moeda"
description: Com publicações de pesquisa em tempo recorde, a ciência se reinventou com o Coronavírus. Porém, há perigos nesta aceleração. Os negócios também tiram licões preciosas com a necessidade de inovar.
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author: ilumeo-admin
published: 2020-05-16T13:25:31Z
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# Aceleração da ciência em tempos de pandemia: os dois lados da moeda

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Com publicações de pesquisa em tempo recorde, a ciência também se reinventou com o Coronavírus. Porém, há perigos nesta aceleração. Os negócios também tiram lições preciosas com a necessidade de inovar.

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A necessidade de combater o novo Coronavírus modificou drasticamente a produção científica nos primeiros meses de 2020. São duas faces da mesma moeda. Por um lado, pesquisas e resultados que demoravam cerca de seis meses para serem publicados em revistas científicas e terem seus dados divulgados e tornados públicos, agora podem ser encontrados em sites imediatamente após a sua finalização. Por outro lado, as exigências e o filtro de qualidade caíram muito, o que leva a um viés perigoso. Isso aconteceu de forma semelhante também nos negócios como um todo. Vamos refletir sobre as duas percepções.

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Produção a jato de pesquisas  

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Desde o início da pandemia do Covid-19 há um esforço global, inclusive da Ciência de Dados, para entender e controlar o vírus, buscando prever seu comportamento, antecipar seu impacto e buscar soluções para erradicá-lo. Mais de 7.000 artigos sobre o assunto, desde virologia até epidemiologia, surgiram em três meses. Acredite: isso é muito rápido!

Os pesquisadores geralmente levam anos para projetar experimentos, coletar dados, validar hipóteses e cravar resultados. É comum que as revistas científicas levem muitas semanas e meses para publicar essas pesquisas, já que o procedimento percorre várias etapas, incluindo a edição, processo de verificação anônima, revisão de especialistas externos, entre outros itens. E como elas são consideradas as guardiãs do portão entre os pesquisadores e o resto do mundo, é quase impossível que a produção científica ganhe notoriedade sem passar pelos seus crivos.

Porém, a atual emergência de saúde mundial turbinou isso. Como médicos, ministérios e governos precisam recorrer à ciência para tomar decisões imediatas que impactam em vida ou morte, a velocidade dos resultados se tornou essencial. Assim, os periódicos receberam um aumento de inscrições de publicações, reduziram seus processos normais de revisão e trabalharam horas-extras para atendar à demanda.

Os pesquisadores também buscaram outras formas de ter suas pesquisas publicadas, deixando as revistas como uma opção extra e não como objetivo principal da divulgação de seus resultados. Assim, as novas pesquisas são publicadas em repositórios online, chamados servidores de pré-impressão. Os documentos podem ser publicados rapidamente e com apenas algumas formalidades, sem passar por revisões profundas. Os matemáticos e físicos já os usavam frequentemente e a prática ganhou força entre os biólogos, mas com o Coronavírus isso se alastrou e cerca da metade da produção de trabalhos científicos sobre a pandemia foi lançado neste meio.

Os cientistas chineses, por exemplo, publicaram o genoma do Sars-CoV-2 apenas alguns dias após o vírus ter sido isolado, permitindo a criação rápida de testes para detectar infecções em pessoas com sintomas suspeitos. Relatórios iniciais também sugeriram que a taxa de mortalidade era muito mais alta do que as observadas em outros vírus, como da gripe, o que levou o mundo a enfrentar o problema com mais seriedade. 

A velocidade dessas publicações também surgiu da necessidade da ciência se tornar mais relevante no combate a epidemias de forma mais eficiente que casos anteriores. Marc Lipsitch, epidemiologista de Harvard, está atuando na Covid-19 e traz experiências anteriores dos surtos de Ebola (2014-2016) e Zika (2015-2016) &#8211; quando as respostas foram mais lentas. Ele levantou que as pesquisas foram publicadas nos servidores de pré-impressão cerca de 100 dias antes dos artigos de periódicos. Porém, apenas 5% de todos os artigos publicados em periódicos sobre os dois surtos foram pré-impressos. A informação chegou tarde demais a quem tem o poder de fazer alguma coisa. Essa demora custou muitas vidas.

O caso emblemático da cloroquina  

                  
            

Outro caso que ganhou as manchetes da imprensa foi a utilização da cloroquina e da hidroxicloroquina como um potencial tratamento. A droga é utilizada para tratar pacientes de lúpus, malária e artrite reumatóide e começou a ser testada para o tratamento de Covid-19. Também é utilizada para combater outras espécies de Coronavírus semelhantes ao Sars-CoV-2. Durante a pandemia, o remédio foi testado preliminarmente por cientistas chineses que propôs testá-lo em pacientes.

O medicamento já foi testado também contra os vírus da Zika, Ebola e outras influenzas. Em células isoladas, a droga apresentava bons resultados, mas a utilização em animais apresentava problemas. O remédio ganhou repercussão mundial depois do presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciar que seria testada no país, caminho que também tomou o mandatário brasileiro Jair Bolsonaro. Isso foi estimulado por um artigo publicado no International Journal of Antimicrobial Agents,&nbsp;publicado em 20 de março.&nbsp;Esse documento agora tem pontos de interrogação sobre seu rigor e confiabilidade. Porém, a notícia já havia sido espalhada e algumas decisões de grande influência podem ter sido tomadas com base nisso.

O estudo foi conduzido pelo médico infectologista francês Didier Raoult, que testou 20 pacientes, mas avaliou somente a carga viral e não seu resultado clínico como febre e oxigenação. 

A Isac &#8211; International Society of Antimicrobial Chemoterapy &#8211; responsável pelo periódico, afirmou em 3 de abril que a pesquisa não atendia aos padrões esperados, especialmente pela falta de explicações dos critérios de inclusão e triagem de pacientes. A Isac também afirmou ser importante ajudar a comunidade científica a publicar novos dados rapidamente, mas que isso não poderia acontecer às custas da redução do escrutínio científico.

Atualmente há pelo menos 80 estudos no mundo testando a cloroquina contra a Covid-19. Com mais dados, será possível saber qual o real efeito da droga no combate à doença. Como efeitos colaterais, pode causar reações graves que levam a morte, como insuficiência hepática e insuficiência cardíaca. 

A transformação nos negócios  

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Bem, nos negócios isso aconteceu de forma semelhante. Uma brincadeira que circulou na Internet após as medidas de isolamento e distanciamento social e os desdobramentos econômicos, ilustra isso de forma direta: 

                  
            

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Os negócios também precisaram responder à pandemia de forma tão acelerada quanto a ciência a fim de se manterem relevantes e atender ao novo comportamento social. É verdade que o impacto foi gigantesco – segundo o Sebrae, 88% das pequenas empresas declararam queda semanal de faturamento, chegando a ser, em média, 69% menor em relação a uma semana antes da pandemia chegar ao Brasil.

Por outro lado, surgiram alternativas que traduzem essa nova fase, como as vendas em e-commerces, que cresceram 48,3% em relação ao mesmo período de 2019 (segunda quinzena de março até o fim de abril).

Negócios tradicionais se reinventaram, operando de formas diferentes. Alguns exemplos são o restaurante Bia Hoi, de comida vietnamita, que passou a vender vouchers para as pessoas utilizarem depois da crise. A franquia da Sterna Café passou a entregar comida em domicílio, a marca de scooters elétricas Voltz trocou o showroom físico por um mostruário virtual.

Outros exemplos são a fintech Cora, que nasceu um banco digital e criou uma plataforma onde os consumidores podem comprar cupons de produtos e serviços de pequenos negócios para serem usados quando possível. A Eats 4You, que conecta pequenos cozinheiros a empresas para entregarem marmitas no almoço, passou a disponibilizar entregas em casa com o aumento do regime de Home Office. 

Nas empresas é possível se perguntar: qual a face da moeda que caiu para cima com a turbulência decorrida da pandemia? Os impactos foram inevitáveis, restando saber qual lição é possível tirar para que a reinvenção ocorra. A exemplo desses e de tantos outros negócios, alguma nova prática ou algum novo processo pode ajudar a melhorar o desempenho agora e quando tudo isso passar.
